
Eu não estava satisfeita com a resposta dela! Como assim "não tenho objetivos na vida"? Era a segunda vez que ela me dizia isso, só que com outras palavras. Na primeira vez foi algo como "não acredito nesse negócio de sonhos, não, professora. Isso é besteira!". Da mesma forma que ocorreu na primeira situação, a resposta de hoje me deixou incomodada. Decidi conversar. Perguntei o que ela iria fazer no futuro, para se sustentar quando os pais não estivessem mais cuidando dela. Ela disse que não sabia. Tentei por outro caminho. Quis saber o que ela gostava de fazer. Por aí tive mais sucesso. Ela respondeu que gostava de música. Isso era evidente, pelo seu jeito meio roqueiro somado ao pingente de clave de sol sobre a blusa da escola, e ao fato de estar sempre com fones de ouvido nos horários vagos. Com seu jeito doce e arredio, ela disse que tinha um violão, mas não sabia tocar. Foi nesse momento que seus olhos se encheram de lágrimas. Percebi que nossa conversa atingiu o coração dela. Perguntei por que ela não sonhava em trabalhar com música, já que gostava tanto. Disse que havia tantas possibilidades: produtora musical, artista, dona de estúdio de gravação, professora de música... Ela respondeu: "meu pai não acredita em mim. Ele disse que isso não traz futuro." Nesse momento, as lágrimas já molhavam seu rosto antes implacável. Eu disse que ela poderia mostrar aos pais que era isso que ela queria, que era o seu desejo e que poderia ser bem sucedida e feliz fazendo o que gosta. Contei que meu pai também demonstrou certo desânimo quando eu disse que gostaria de ser professora, mas isso não me fez parar de sonhar. Disse que conquistei o orgulho do meu pai fazendo o que amo e sendo feliz. Nos abraçamos. Ela voltou ao seu lugar com o trabalho na mão. Em sua mesa, apagou a resposta que tinha dado e escreveu que seu objetivo era estudar música.
Me dei conta de que no meio de tantas dificuldades relacionadas à minha profissão, não posso deixar de perceber o quanto posso colaborar para a formação dos jovens com os quais convivo diariamente. Talvez ela encontrasse outra pessoa para incentivá-la, para mostrar que é possível e preciso sonhar, mas hoje eu estava perto, disponível e disposta a ouvir, e ajudar.
Não temos que ter medo de sermos professores sensíveis. Na verdade, precisamos disso em nosso relacionamento com nossos alunos. Claro que não iremos resolver todas as questões problemáticas que eles enfrentam, mas só o fato de não ignorarmos os sinais de alerta que eles enviam, mesmo sem querer, já é muito. Quando nossos alunos perceberem que nos importamos de verdade com eles e que os respeitamos como indivíduos, muita coisa vai mudar para melhor. Eu acredito de verdade nisso. Muitas vezes uma simples conversa pode reescrever uma história, um simples sorriso pode salvar uma vida, um abraço na hora certa, pode mudar o mundo de alguém.
Nenhum comentário:
Postar um comentário